Tibidaba
Muita gente me pergunta (mentira, ninguém me pergunta) o que, afinal de contas é Tibidaba. Ela existe?
Tibidaba é uma cidade inventada pelo meu filho, onde habitam seus amigos imaginários. Sendo assim é metade dele; metade minha, imaginária; metade metáfora de uma cidade em que eu habitei outrora e que só existe desse jeito no meu pensamento (sim, Tibidaba tem três metades e desafia a matemática e a lógica). É uma cidade estado, com legislação, moeda e idioma próprios. Além de muitas outras coisas que não têm espaço no nosso mundo. Sua geografia é elástica e pouco precisa. Suas fronteiras, desconhecidas. Pode ser do tamanho de um continente ou de uma cadeira.
Você já se perguntou para onde vão todas as tampas de caneta, guarda-chuvas, prendedores de cabelo e pés de meia perdidos? Eles vão para Tibidaba!
Outra coisa que sempre aparece em Tibidaba são os amores que não encontram lugares no mundo. Que nunca aconteceram, a não ser na imaginação. Que deram errado. Os sentimentos que nunca foram expressados, as palavras não ditas, engolidas e mal digeridas. Os nós na garganta. A resposta que você gostaria de ter dado. Ou ouvido. O “sim” ou “não” que nunca chegaram. E também aquelas que você julga que foram a mais. Que não deveriam ter sido ditas. Os sonhos que não se realizam. Os “e se eu tivesse feito diferente?”. Os caminhos não percorridos. Aquela pergunta que a gente sempre se faz de “como teria sido se”. Lá em Tibidaba elas estão acontecendo. Cada qual encontra seu lugar. Os descaminhos encontram lugar.
Os amigos que se perderam pelo caminho ainda são amigos em Tibidaba. Afinal, não há falta de tempo em Tibidaba, nem palavras ásperas e cortantes, muito menos mal-entendidos. Existem bem-entendidos. Confusões linguísticas que fazem com que as pessoas se encontrem e se falem com frequência. Não há desencontro, porque o tempo funciona diferente por lá. As pessoas se teletransportam (ou teleportam, como diz meu filho). Há sempre uma calçada, uma pracinha, um bar, um café abertos em Tibidada, a qualquer hora do dia ou da noite.
Tibidabiano, a língua oficial de Tibidaba, é um idioma muito preciso e sofisticado, onde todos os sentimentos, por mais específicos que sejam, têm um nome e um lugar certo para existir. Todas as palavras inventadas e por serem inventadas já existem lá. Existem sentimentos nunca sentidos por ninguém prontos para serem experimentados.
Existe uma palavra em tibidabiano para descrever o sentimento de total esgotamento pela sobrecarga de tarefas, estímulos sensoriais e desalento existencial, misturado a pequenas porções de decepções diárias com pessoas, coisas situações e instituições, doses de frustrações de toda sorte, salpicado de ansiedade variada e múltipla com fatos absolutamente aleatórios, arrependimentos minúsculos e gigantescos e que fogem a qualquer controle, decepção com pessoas, sensação de desimportância para os outros, com pitadas muito sutis de resignação e um grão ínfimo de esperança no futuro.
Existe, eu só esqueci qual é a palavra.



Fronteiras abertíssimas para pessoas legais e amigos!
Até que a Extrema Direita assuma o governo de Tibidaba e mande deportar todos os forasteiros e pobres do país. Privatizar suas lindas praias secretas e ameaçar taxar produtos de Twin Peaks, Carcosa, Saramandaia e até Macondo!